segunda-feira, 20 de agosto de 2012

SURDEZ E TRABALHO

Tenho conversado bastante com meus amigos surdos sobre como a surdez é encarada no ambiente de trabalho e como interfere no momento de procurar emprego, se inscrever em concursos, se enquadrar ou não nas cotas para deficientes.
Sou funcionária aposentada do Banco do Brasil e como minha surdez apareceu depois de ter passado no concurso, nos exames médicos, etc...não tive problemas na admissão ao trabalho, e poucos problemas no trabalho propriamente dito. Podia falar ao telefone com auxílio dos aparelhos auditivos, nas reuniões sentava na primeira fila e no trabalho e também na universidade consegui seguir minha vida tranquilamente, sem nunca esconder os aparelhos auditivos.
Faz-se necessário explicar ao leitor leigo que a perda auditiva se apresenta com enorme variação e isso determina uma variação nas dificuldades e e possibilidades das pessoas surdas.
Existem as pessoas surdas, que nasceram surdas e que pouco ganho têm com o uso de aparelhos auditivos. Geralmente aprendem a língua de sinais, no Brasil é chamada libras, vão a escolas que oferecem o ensino nessa língua e onde o português escrito é aprendido depois. Como não convivo com os surdos usuários de libras não vou me atrever a escrever sobre o assunto. 
Neste blog tratamos dos surdos usuários da língua portuguesa, sejam eles surdos de nascença que foram oralizados, que não usam língua de sinais e se expressam bem em português escrito tendo feito seu aprendizado em escolas comuns, junto a alunos ouvintes ou sejam os surdos pós-linguais,  que perderam a audição depois de terem aprendido a falar, muitos usam aparelhos auditivos de diferentes potências, outros usam implante coclear e outras tecnologias que ajudam a ouvir. O que nos une é o uso correto do português escrito (e outras línguas também).
Infelizmente os meios de comunicação desconhecem a diversidade dentro da surdez e ainda se podem ler matérias que falam de "surdos-mudos" definição antiga e incorreta uma vez que surdez e mudez são deficiências diferentes, que atingem órgãos diferentes e não são concomitantes. Muitos surdos considerados mudos são os que usam língua de sinais, mas estes mesmo não usando a voz, não têm lesões no aparelho fonador. E geralmente alguns surdos  que têm a libras como primeira língua têm dificuldades no uso da língua portuguesa por conta da estrutura da libras, diferente do português. Por isso muitas vezes divulgam nos meios de comunicação que os surdos (erradamente, todos os surdos) têm dificuldades em entender e se expressar na língua portuguesa escrita, que necessitam correção diferenciada nas redações, etc. 
Confesso que eu mesma tenho dificuldade para entender mensagens escritas de alguns surdos usuários de língua de sinais.

A grande dúvida de muitos surdos usuários da língua portuguesa, ao procurar emprego é o preenchimento de informações pessoais, indicar ou não a surdez?

A dúvida surge por causa da desinformação da sociedade a respeito dos vários tipos e graus de surdez. Os surdos usuários da língua portuguesa e oralizados podem ter formação profissional, técnica, cultural idêntica à das pessoas ouvintes. Tenho amigos surdos oralizados mestres, professores universitários, engenheiros, publicitários, jornalistas, bancários etc. Todos se expressam em português fluente e em outras línguas também. Nossas maravilhosas próteses auditivas nos permitem comunicação na vida cotidiana, no âmbito escolar e no trabalho.

Mas muitos temem que ao preencher formulários na busca de empregos e indicar a surdez sejam rejeitados sem que tenham oportunidade de mostrar suas capacidades e conhecimentos. Tudo por conta do mito divulgado pela imprensa de que os surdos não sabem escrever ou interpretar textos em língua portuguesa.
Então para muitos escaparem desse preconceito infundado a solução parece ser concursos públicos e a lei de cotas para pessoas com deficiência. 
Mas...sempre existe um mas, surdos unilaterias não têm o direito legal de participar das cotas porque a lei define surdez bilateral... alguns precisam entrar com recursos legais. E o irônico e triste da história é que se um surdo unilateral participa de concursos fora da lei de cotas pode ser aprovado no concurso e rejeitado no exame médico que detecta a surdez.

Pensamos que a solução seria a  a ampla divulgação de que existem graus de surdez, existem surdos que só se comunicam em língua de sinais e que existem surdos usuários da língua portuguesa (e outras) que usam próteses de vários tipos e não têm problemas no uso do português escrito, na interpretação de textos e que possuem formação cultural e profissional semelhante a qualquer outra pessoa.
A evolução tecnológica está facilitando cada vez mais nossa integração na sociedade mais ampla, amplificadores, telefones, mensagens de texto. 
Somos profissionais competentes, cidadãos participantes e é preciso que a sociedade saiba disso. Queremos estudar, trabalhar, usufruir da cultura como qualquer cidadão.

Algumas pessoas, profissionais surdos e competentes também comentam uma prática desonesta por parte de algumas empresas...contratam alguns deficientes só para preencher a cota, na verdade esse profissional é "encostado" não exigem dele trabalho, produção,  impedindo assim um verdadeiro progresso profissional. São distorções que precisamos denunciar e ajudar a corrigir.

Leia a nota abaixo sobre fiscalização de empresas que contratam pessoas com deficiência:
http://www.apabb.org.br/visualizar/Fiscalizaco-de-empresas-que-contratam-pessoas-com-deficiencia-esta-mais-rigida/3370

A seguir frases de profissionais deficientes auditivos mostrando suas dificuldades, os autores dos comentários autorizaram sua reprodução mas omitimos os nomes porque o que nos interessa são as idéias.

"E hoje que me recomendaram pra não dizer que tenho deficiencia auditiva leve nas inscrições de trainees... Por que tem recrutador que olha isso e já descarta o curriculum...
Fiquei puto!"


"hoje em dia, empresas usam e-mail para comunicação interna. Na multinacional que estagiei, em 6 meses usei telefone uma vez para pedir assistencia técnica no pc da empresa..."


"você usa aparelhos auditivos? pode conversar normalmente? Porque se você omite a deficiência e depois percebem ai a coisa fica pior e depois muitas empresas antes de contratar fazem uma bateria de exames médicos, até audiometria. Muitos surdos unilaterais que não disseram ter deficiência passaram em concurso e foram barrados pela audiometria"


"Eu ouço bem, celular, telefone e tudo. Mas sim, uso aparelho auditivo para isso. E você tocou no ponto importante que eh justamente eles me barrarem por isso."


"Então acho que omitir pode te prejudicar sim, mas na inscrição há formulários onde se deve indicar deficiências? Se não perguntam não precisa dizer, aí você terá a possibilidade de explicar que não havia essa pergunta nos formulários, etc...que não omitiu nada."


"Sinceramente, acho uma tremenda falta de respeito. O cara faz milhares de testes em candidatos (um dos programas tem candidatos de 50 países), eu investirei na passagem aérea para ir à entrevista pessoal se me seleccionarem, e se aprovado na hora de assinar o contrato eles vão jogar tudo fora por que minha deficiencia é eliminatória? Que eu saiba a inteligencia e capacidade comunico/social é o maisimportante hoje em dia. (Salvo trabalhos onde ouvir é requisito mínimo, tais como piloto de aviao, mineradora, etc...)."


 "Mas em certos trabalhos a gente deve participar de reuniões, discutir projetos, expor projetos, etc, e se a comunicação em grupo é dificultada pela surdez a coisa fica feia. Eu fiquei surda depois de ter passado em concurso do BB, naquele tempo não tinha cotas. Sofri muito para participar de reuniões que eram frequentes e obrigatórias, e o pior tínhamos que redigir atas. Como redigir uma ata de reunião sendo surdo?"


"Estou nesta mesma situação,não dava muito valor a minha perda auditiva sempre escutei com e sem AASI,por escutar sem AASI as pessoas não pensam que sou deficente auditivo, pois a minha perda é neurosseorial de leve a severa, por ter uma perda leve nas frequências baixas permitir a escutar sem aparelho,porém em lugar ruído ou com muito barulho não permitir escutar as falas."


"Tem muita gente nessa situação sim, e muito empregador ainda acha que surdez significa não falar, ser mudo ou só usar a língua de sinais o que pode prejudicar o trabalho na visão deles. Por isso mesmo temos que fazer campanha permanente, nos blogs e nas redes sociais mostrando que com próteses, ajudas técnicas podemos falar bem, escrever bem, ouvir, estudar, ter boa formação profissional e cultural. Muitas vezes ao ver meus AASI as pessoas comentam mas você fala tão bem, não parece surda."


"No tempo em que estava cursando ... teve uma seleção para estagiário, quando fui fazer a entrevista perguntaram que tinha alguma deficiencia,pois poderia entrar na cota,prontamente falei que era deficente adutivo,pergutaram que usava aparelho, mostrei o meu AASI intracanal ela pediu para agilizar um enxame audiometrico e uma declaração,fiz tudo e quando chegou no dia da prova mostrei as documentação,pessoal da empresa me falaram que não poderia entra na vaga por não ter a perda compativel."


"Então o dilema é preencher formulários, como primeira abordagem. Se a gente se declara surdo podem nos descartar de cara movidos pelo preconceito, sem dar oportunidade de mostrar nossa capacidade. Por outro lado se te pegam omitindo essa condição podem te botar um carimbo de desonesto, deficiente e desonesto, ai a coisa fica feia!"


"...estou neste dilema sou ou não sou deficiente auditivo?depois dessa tentativa que fui reprovado,comecei a pesquisa sobre a minha perda auditiva,porque não tinha sido aprovado na cota,comecei a entender a classificação e graus, conheci os blogs da Sô, da Paula e da Lak vem me ajudando bastante"


5 comentários:

Cristina ferber vieira lessa disse...

Excelente postagem, Sonia! Tenho visto mesmo muitas dúvidas sobre o assunto. Observo também que algumas pessoas confundem surdez com incapacidade para o trabalho. E como a surdez se manifesta em graus e por causas diferentes, não se pode generalizar e dizer que nenhum surdo poderia executar esse ou aquele trabalho.Vc mesma disse que falava ao telefone com o auxílio dos aparelhos auditivos, eu já acho difícil conciliar o aparelho com o telefone, e por aí vão as diferenças que precisam ser observadas no ambiente de trabalho.

Carminda Marçal disse...

Olá Sonia!
Que super texto!
Parabéns!
Concordo plenamente com a necessidade -entre muitas- de se esclarecer sobre a sirdez e suas diferenças de indivíduo p/ indivíduo. Eu mesma, já passei por situações em que "ouví" isso:
Informando que tinha def. auditiva e pessoa diz: Mas vc fala,imagina que não ouve?!" Mudando de setor em trabalho, e o outro chefe sabendo ser eu def. auditiva, se negar a receber, e só depois de muita insistência, é que fui aceita, com a justificativa de que me veriam p/ resolver o que fazer. Em outra situação, em exames médicos, ouvir de um médico que por ser def. auditiva eu nunca poderia estar trabalhando naquela empresa. E por aí vai...
Abraços,
Carminda

soramires disse...

Cris e Carminda, fico muito feliz com a aprovação de vocês. Mandei o texto para gente que trabalha com recursos humanos, são profissionais que precisam saber de nossas capacidades.Eu já estou aposentada então dedico este texto aos amigos e amigas surdos que encontram dificuldades de encontrar trabalho devido a preconceitos infundados. Abraços.

Gabi VA disse...

Olá Sônia, post muito importante pra mim, passei no concurso agora, vão me chamar em dois meses, entrei nas cotas, por ser surda bilaterial profunda/severa , poderia fazer normal, mas se você faz um concurso omitindo sua deficiência você é desclassificado, e eu não quis arriscar. Vou entrar lá e mostrar minha capacidade, deixar claro que faço leitura labial, e uso aparelho auditivo para controlar o som da minha voz, e mostrarei que não sei usar LIBRAS, afinal tenho diploma superior pra comprovar isso, sou Bióloga formada pela federal do Amapá. Abraços!

soramires disse...

Grande Gabi, parabéns! Espero que te chamem logo para trabalhar. Abraços e conte as novidades.

Postar um comentário

DEIXE AQUI O SEU COMENTÁRIO