domingo, 9 de outubro de 2011

Filmes e debate sobre surdez, oralização - Festival Assim Vivemos

Primeiro vou colocar aqui um resumo dos filmes exibidos antes do debate:

Sonoro / Dir. Levin Peter; Alemanha, 2010. 37’

Sonoro nos conta sobre o encontro de um músico de cinema e uma professora de ballet, que é surda de nascença. Duas pessoas aparentemente com conflitos de percepção dos sons entram na esfera de uma jornada musical. Eles exploram espaços acústicos, experimentam com vários instrumentos e procuram novos sons. Suas experiências são interpretadas em improvisações musicais. Sonor convida o público a uma experiência em sua própria percepção de tons e sons, em um filme com fotografia em preto e branco, onde forma e conteúdo se integram harmonicamente.

Descrição da foto:Bailarina surda, tendo um tambor diante de si está gesticulando de braços abertos em frente ao músico  que tem nas mãos um saxofone.

Espectro / Dir. Alexandre Figueira; Brasil, 2011. 7’

Neste curta de ficção, Raquel é uma jovem surda comunicativa, conhecida por se divertir em aplicar peças ou contar estórias assombrosas para, na verdade, mascarar sua crença e, principalmente, seu medo do sobrenatural. A convite de amigos, passa a freqüentar um curso noturno no Centro Cultural, onde situações estranhas ocorrem quando ela se encontra sozinha. Sentindo-se confusa com objetos pessoais que somem e reaparecem, vê-se perseguida ou por sua própria imaginação ou por um espectro. Inspirado na lenda urbana “A Loira do Banheiro”.
Descrição da foto: a personagem jovem surda, camiseta branca, cabelos longos, castanhos, tem um batom nas mãos e está diante do espelho do banheiro, com cara de medo, rosto contraído, atrás dela surge outro rosto feminino, moça um pouco mais alta, cabelos longos, escuros, blusa branca, que aproxima o rosto da personagem: o espectro? 

Ouvindo silêncio / Dir. Hilary Fennell; Irlanda, 2010. 13’

A habilidade de ouvir tem uma influência tão crucial no processo de compor músicas que é quase impossível imaginar como um músico profissional se sente quando é diagnosticado nele uma doença chamada Otoesclerose, que leva à surdez progressivamente. É exatamente isso o que está ocorrendo com a flautista Elisabeth Petcu. Como Beethoven, Elisabeth está sofrendo perda de audição, com as cartilagens do ouvido se juntando e impedindo que o som entre e vibre. Ano passado, após 25 anos como flautista principal, Elisabeth teve que deixar seu trabalho na RTE Orchestra. O filme mostra como esta flautista está lidando com a perda de um sentido vital com força e bom humor.
Descrição da foto: Uma mulher, com vestido vermelho e cabelos longos toca flauta transversal diante de uma estante com a partitura.Parece estar olhando para outro músico que não aparece na foto.

Dois Mundos / Dir. Thereza Jessouroun; Brasil, 2009. 15’
Para os surdos, existem dois mundos: o mundo do silêncio e o mundo sonoro. Este filme é sobre a experiência com o mundo sonoro dos surdos que transitam entre os dois mundos.
pode ser visto em:
http://www.youtube.com/watch?v=Ww3nW6U0fTM


http://www.portacurtas.com.br/pop_160.asp?Cod=9049

O debate seria originalmente sobre "Surdez e implante coclear" mas houve contratempo e as debatedoras sobre implante coclear não estiveram presentes.
Comecei dizendo que a escolha de filmes com diferentes abordagens de pessoas surdas e suas atividades nos ofereceu uma visão de diversidade muito interessante.
SONORO:
A bailarina surda, oralizada, se expressando sem dificuldade, experimentando a forma de propagação do som, sua vibração e sua gravação em diferentes ambientes, com diferentes características acústicas.  Sentindo o contraste do som numa estação ferroviária, numa floresta, em estudios de gravação nos faz refletir sobre as múltiplas facetas da percepção da vibração sonora.
Interação interessante e produtiva entre um músico ouvinte e uma surda, que usa aparelho auditivo, fala bem e é bailarina, o som analisado de diferentes pontos de vista (ou melhor pontos de percepção).


ESPECTRO: história de ficção ocorrida num âmbito em que todos se expressam usando a língua de sinais. Mesmo sendo uma produção brasileira necessita legendas para que quem não conhece libras possa acompanhar a história. Na verdade, não apresentou  dúvidas ou problemas a serem discutidos. A única coisa que eu achei digna de nota  foi que na cena final em que a garota vê um espectro no espelho, o esperado num filme com ouvintes seria um grito de terror o que não ocorre porque a língua do personagem é a gestual.

OUVINDO O SILÊNCIO:
Trata de uma flautista, que abandona uma carreira exitosa por perder a audição e ter dificuldades de trabalhar em conjunto com seus colegas. É uma perda devido a otosclerose. Com ajuda de aparelhos auditivos e uma memória auditiva muito rica consegue continuar a se comunicar e busca alternativas para exercitar a criatividade, e apesar de abandonar a carreira não deixa de tocar. Porque a música é escrita e pode ser lida e executada mesmo por quem não a pode ouvir. A escrita musical  é uma forma de memória para o músico que perde a audição.
Uma pessoa ouvinte que perde a audição precisa aprender a ser surda, a prestar atenção no movimento dos lábios, na expressão facial e corporal dos demais, aprender a reconhecer os sons cotidianos que lhe são devolvidos via microfone e amplificador.
Cito como exemplo algo que ocorria quando os gravadores domésticos não eram tão conhecidos, a primeira vez que a pessoa ouvia sua voz reproduzida depois de  gravada, quase sempre sentia uma estranhamento, essa é minha voz? Que voz feia! Etc... Isso também ocorre com quem perde a audição e passa a se ouvir através de um equipamento, a voz fica "metálica", estridente, etc. Até que a pessoa se acostume e também com os ajustes feitos pelo fonoaudiólogo(a).

DOIS MUNDOS:
Apresenta surdos oralizados, alguns com implante coclear e outros com aparelho auditivo, comentando suas atividades, sua relação com fala, barulho, silêncio.
É interessante observar que existem diferentes graus de oralização se enfocarmos do ponto de vista da pessoa ouvinte: eu no momento, equipada com meus aparelhos auditivos ocupo o lugar de ouvinte, e sinto dificuldade de entender a fala da maioria das pessoas, o filme é totalmente legendado o que facilita a compreensão. Percebo que em muitos casos, para entender um surdo oralizado é preciso muita atenção e também um ajuste, uma familiaridade com a pessoa que fala para entender seu "sotaque" .
Já outras pessoas oralizadas falam fluentemente e articulam de maneira mais clara. Outra vez nos deparamos com a diversidade, cada caso é um caso, sem dúvida.
Tive dificuldade para entender a pergunta de uma surda oralizada e fui ajudada por uma outra surda oralizada, cuja fala eu conseguia entender, também o intérprete de língua de sinais ajudou a traduzir para o português.

E a constatação da maioria de que o mundo ouvinte é muito barulhento, que os fogos de artifício são bonitos mas o som é desagradável...o caos do trânsito...e o uso do recurso de desligar o equipamento para acabar com tanto ruído molesto.

Evidentemente que quem cresceu ouvindo aprendeu a selecionar os sons e abstrair  alguns, coisa impossível de ocorrer de imediato, por isso uma dose de paciência e os ajustes de equipamento são tão necessários.

É muito elucidativo ler os blogs de pessoas implantadas, onde acompanhamos com emoção os progressos na identificação dos sons, das palavras no caso de pessoas adultas. No caso de bebês implantados muitos filmes do youtube mostram a ativação do implante, o susto, o choro ou o olhar curioso procurando de onde vem o som...são os passos necessários para aprender a ouvir através de um equipamento auxiliar.

Apesar de surgirem perguntas,  não me dispus a discutir sobre escolas especiais ou integração no ensino regular da criança surda. Foge do meu conhecimento e experiência e acredito que uma longa discussão do assunto é necessária. E foi informado aos presentes que haveria um debate sobre o assunto num outro dia.

Por ser surda pós lingual, surdez adquirida na idade adulta nunca tive necessidade de escola especial, tratamento com fonoaudiólogos para manter a fala, meu universo é o dos aparelhos auditivos e através de amigos implantados vou conhecendo também essa ajuda técnica.

Procuro manter uma posição de pesquisadora, de traduzir textos referentes à acessibilidade de surdos e deficientes auditivos nos países da Comunidade Européia, na Austrália, nos EUA, Canadá e Argentina.

Informei que na Argentina as sessões de cinema e teatro legendado ocorrem pelo esforço do pessoal da Mutualidad Argentina de Hipoacúsicos da qual sou sócia, que promovem a doação de "aro magnético" a escolas, cinemas, teatros, etc..além da venda de equipamentos e próteses com preços livres de impostos  e que tenho divulgado essas ações para que possamos "importar" esse modelo de atendimento.
Meu foco é o surdo oralizado e o surdo pós lingual que usa a língua portuguesa. 
Essa ajudas técnicas encontradas em outros países são basicamente:
legendas em filmes, tv e teatro,
informação escrita repetindo a informação emitida por alto falantes em espaços públicos,
aulas acompanhadas por estenotipista que cria o texto do que é dito pelo professor, conferencista seja em telão, seja em texto impresso,
em escolas, tribunais, igrejas, universidades além da transcrição da fala por estenotipista existe o amplificador de indução magnética (aro magnético ou hearingloop) onde o som pode ser captado sem interferência diretamente por aparelhos auditivos e implantes cocleares,
Atendimento de serviços de maneira geral e de emergência feitos por telefone sejam também feitos via SMS  (mensagens escritas via celular) chat on line ou por e-mail (correio eletrônico)
Para os surdos oralizados e os surdos pós linguais que usam a língua portuguesa, a mensagem escrita é o meio ideal de comunicação evitando mal entendidos.

Este é apenas um relato resumido, feito de memória, sobre o debate que foi cheio de perguntas e principalmente de depoimentos interessantes. Assim que esteja disponível material sobre o debate publicado pelos organizadores colocaremos o link.

Outros debates do Festival Assim Vivemos:
http://assimvivemos.com.br/wp/debates/
Foto de Robinson R.Pitolli no link abaixo:
https://plus.google.com/photos/101724090982762880441/albums/5379445588474740257/5661451460653232962?banner=pwa

5 comentários:

Anônimo disse...

Olá!

Eu vi a senhora nesse debate do Festival Assim Vivemos, que terminou com o fiasco da intervenção daquela senhora. Gostaria de ter o seu contato. Nome e email. Sou antropólogo e pesquiso surdez.

Meu email: cesaraugustonet@yahoo.com.br

Abs.
César.

Anônimo disse...

Olá! Apenas à título de informação o curta metragem "Espectro" foi produzido por surdos e ouvintes como um exercício final do curso Vídeo Libras, realizado no Centro Cultural de SP. Trata-se de uma ficção, com o objetivo de intreter e, por tanto, de fato não se encaixa no estilo filmográfico que diretamente incita reflexão ou debate. A não ser, talvez, pelo fato de mostrar características surdas como a que você apontou - não há o grito de horror no final, ou ainda o de mostrar que iniciativas na área da ficção/entretenimento estejam sendo realizadas por surdos brasileiros. Pensando na acessibilidade o curta foi, sim, produzido com versão legendada! Não sei dizer porque esta versão não foi disponibilizada no Festival Assim Vivemos... Uma pena!
Abraços, Guadalupe

Anônimo disse...

Desculpe! Não realizei a edição antes de publicar o comentário acima e ao reler o texto percebi que algumas palavras foram grafadas incorretamente! Por favor, permita-me corrigí-las: "portanto" se grafa junto, "entreter" se grafa com /e/ no início e "por que", com o sentido de "motivo" deveria ter sido escrito separado. Agora sim! :) Abraços, Guadalupe

soramires disse...

Guaalupe eu não disse que o filme não tinha legendas em português. Tinha sim, caso contrário eu não teria entendido. O que eu disse é que um filme em libras, tem que ter legendas.

Anônimo disse...

Soramires, creio que a construção do texto deixa margem para o entendimento de que a apresentação foi realizada sem legendas: "ESPECTRO: história de ficção ocorrida num âmbito em que todos se expressam usando a língua de sinais. Mesmo sendo uma produção brasileira necessita legendas para que quem não conhece libras possa acompanhar a história".
Mas, fico feliz que não tenha sido assim e que os surdos usuários do Português escrito tenham tido acesso ao conteúdo do curta! Abraços e obrigada pela atenção! Guadalupe

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